A ERA DA INFORMAÇÃO

Neste último quarto do século XX, estamos experimentando algumas mudanças que estão transformando profundamente as relações econômicas, sociais e culturais em nosso planeta. E o que vem alimentando este processo é o surgimento de algumas tecnologias ou mesmo a evolução de outras já existentes.

Dentro deste conjunto de tecnologias podemos citar: a microeletrônica, a computação, as telecomunicações/radiodifusão, a optoeletrônica e a engenharia genética. Estas tecnologias vem interagindo e evoluindo nos últimos anos de maneira tal que podemos afirmar que passamos por processo semelhante ao vivido em meados do século passado, durante a Revolução Industrial, que também causou impactos relevantes na sociedade de então.

Ao redor deste núcleo de tecnologias da informação uma constelação de grandes avanços tecnológicos vem ocorrendo, nas duas últimas décadas do século XX, no que se refere a materiais avançados, fontes de energia, aplicações na medicina, técnicas de produção e tecnologia de transportes, entre outros. Além disso, o processo atual de transformação tecnológica expande-se exponencialmente em razão de sua capacidade de criar uma interface entre campos tecnológicos mediante uma linguagem digital comum na qual a informação é gerada, armazenada, recuperada, processada e transmitida.

Hoje, vivemos a Revolução da Tecnologia da Informação, que tem suas origens na Segunda Guerra Mundial, período no qual todas as nações envolvidas no conflito canalizam esforços e recursos na pesquisa de novas tecnologias que venham a ser o diferencial que possa levar cada uma delas ao resultado da vitória. Exemplos disso podem ser o Colossus britânico (1943) idealizado para decifrar códigos inimigos e o Z-3 alemão (1941) para auxiliar os cálculos das aeronaves, que podemos considerar como os precursores dos computadores. E assim com as demais tecnologias concebidas durante este período.

Porém, a difusão em escala comercial destas tecnologias só viria a ocorrer, verdadeiramente, a partir de meados dos anos 70. O microprocessador inventado em 1971 começou a ser difundido em meados dos anos 70. O Apple II, primeiro microcomputador de sucesso comercial foi introduzido em 1977. Nesta mesma época, a Microsoft começou a desenvolver sistemas operacionais. A Xerox Alto, matriz de muitas tecnologias de software para os PCs, foi desenvolvida nos laboratórios PARC em Palo Alto, em 1973. O primeiro comutador eletrônico industrial surgiu em 1969, e o comutador digital foi desenvolvido em meados dos anos 70 e distribuído no comércio em 1977. A fibra ótica foi produzida em escala industrial pela primeira vez pela Corning Glass, no início da década de 70. Foi em 1969 que a ARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa norte-americano) instalou uma nova e revolucionária rede eletrônica de comunicação que se desenvolveu durante os anos 70 e veio a se tornar a Internet, extremamente favorecida pela invenção, por Cerf e Kahn em 1974, do TCP/IP, o protocolo de interconexão em rede que introduziu a "abertura", permitindo a conexão de diferentes tipos de rede. De lá para cá, o que vimos foi uma evolução em velocidade fantástica, a cada dezoito meses dobra-se a capacidade de processamento das máquinas a custos cada vez menores, segundo a "lei de Moore". A própria tecnologia auxilia no projeto de sua evolução. É a tecnologia criando tecnologia. E é nesta tecnologia que estamos imersos neste final de milênio.

Vivemos uma era de economia informacional e global. Informacional porque a produtividade e competitividade dependem basicamente da capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos. Global pois as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos. É informacional e global porque, sob novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é feita em uma rede global de interação. E ela surgiu no último quarto do século XX porque a Revolução da Tecnologia da Informação fornece a base material indispensável para essa nova economia. É a conexão histórica entre a base de informação/conhecimentos da economia, seu alcance global e a Revolução da Tecnologia da Informação que cria um novo sistema econômico distinto.

Nesta nova conformação econômica, o sistema passa a exigir uma diminuição da intervenção estatal e uma crescente desregulamentação dos mercados, derrubando barreiras alfandegárias, flexibilizando e precarizando as relações de trabalho, diminuindo a participação do Estado na economia e fortalecendo a atuação do setor privado. As potências empresariais assumem a forma de transnacionais, uma vez que uma empresa com origem em determinado país irá comprar suas matérias-primas aonde os preços estejam mais atraentes, às vezes abaixo do custo, irá transformar estas matérias-primas no local onde a mão-de-obra esteja mais barata, e, finalmente, irá colocar seus produtos nos mercados mais lucrativos. Tudo isto ás custas do processamento de informações globalizadas, de forma instantânea, sem sair do lugar. Os capitais especulativos são aplicados onde lhe são pagas as melhores taxas de rentabilidade, acompanhadas em tempo real, sendo que ao menor sinal de perigo são rapidamente movimentados para outros mercados que satisfaçam sua volúpia insaciável, provocando estragos imensuráveis por onde passam. Tudo isto num piscar de olhos, ou num clique duplo do mouse, se preferirem.

As políticas de desregulamentação e privatizações vividas em especial na América Latina nos últimos anos, vem de encontro com estes anseios do sistema ávido em abocanhar filões como os setores da energia, das telecomunicações, mídia e finanças, estratégicos e lucrativos ao contrário da idéia com a qual a opinião pública foi formada. Os investidores que assumem o controle das empresas privatizadas são, via de regra, grupos estrangeiros que possuem suas bases e setores de pesquisa nos seus países de origem. Obviamente, por uma questão de custos, seria inviável manter pesquisas tecnológicas na matriz e nas novas bases adquiridas. Com isso, o que ocorre é que são desativados os setores de pesquisa das empresas privatizadas, aumentando a dependência tecnológica.

Aliás, neste ponto tocamos em outro aspecto da sociedade globalizada. Fala-se muito que vivemos em uma era da informação globalizada. Temos acesso a tudo que acontece ao redor do mundo de forma instantânea. Realmente, se um avião cai do outro lado do mundo, no mesmo instante o noticiário entra em edição extra para dar detalhes do acidente, o número de vítimas, a última refeição servida à bordo, a derradeira comunicação do comandante do vôo com a torre de controle. Mas, até que ponto isto interessa? Será que as informações que realmente interessam são disponibilizadas? Quem controla que informações podem ou não serem veiculadas à opinião pública? Ou será que todos os detalhes do Programa de Desestatização do Governo do Brasil são de domínio público? Por que será que a imprensa não investiga a fundo os motivos que levaram o BNDES a abrir linhas especiais de financiamento com recursos públicos em favor de grupos norte-americanos em detrimento de investidores nacionais para a aquisição de empresas do setor energético no estado de São Paulo recentemente em leilões de privatização?

A velocidade com que as informações são passadas é outro ponto. Não temos tempo de assimilar, de digerir as informações e padrões que nos são impostos. Logo somos bombardeados com novas informações e padrões. Não é dado tempo para que se façam reflexões e formulações próprias. Tudo é dado "pronto" da forma mais conveniente. Einstein, Galileu, Da Vinci, Descartes passavam a vida toda matutando suas teorias. E a nós habitantes desta era globalizada, que tempo nos é dado entre uma edição e outra do telejornal? "Tempo é dinheiro", dirão os tecnocratas engravatados. E o tempo passa cada vez mais rápido, e ficamos cada vez mais pobres.

Muitas vezes a mídia passa padrões que geram violência. É o caso das telenovelas ou dos comerciais, que produzem ícones de consumo: o tênis da moda, o relógio transado. O adolescente favelado que vê o exemplo de seus pais que trabalharam a vida toda e mal conseguem manter um padrão mínimo de dignidade, que dirá alimentar estes sonhos de consumo, com certeza, em muitos casos, será impulsionado ao crime, única maneira de realizar seus desejos, que talvez nem sejam seus, mas foram criados por uma mídia globalizada, que impõem padrões.

Outro fator a ser analisado é o da automação. A utilização das tecnologias em automação deveriam ser no sentido de melhorar a qualidade de vida das pessoas, seja na sua utilização em atividades repetitivas, de alto risco ou periculosidade, seja na redução da jornada de trabalho, liberando o homem para maior tempo livre para o lazer e atividades de seu interesse. Porém, o que se tem visto é uma pura e simples substituição de mão-de-obra humana por máquinas, agravando cada vez mais o problema do desemprego e todas as conseqüências correlatas (violência, miséria, degradação das condições de existência).

Não podemos, naturalmente, esquecer os benefícios advindos destas tecnologias. Muitos dos avanços na área da medicina, dos transportes, da saúde, entre outras áreas, são fruto do emprego das novas tecnologias. Os recursos das telecomunicações nos permitem que nos comuniquemos com qualquer pessoa no momento em que for preciso, agilizando processos e decisões.

Porém, até neste aspecto novos padrões comportamentais são introduzidos na sociedade. Um certo individualismo ou isolamento é percebido, á medida que salas de bate-papo e até mesmo namoro virtual são travados por meio da Internet. Nada substitui o clima de uma roda de amigos sentada à mesa de um bar, numa fervorosa discussão sobre política ou até mesmo futebol.

No campo da engenharia genética, estamos apenas engatinhando. Embora a biotecnologia possa remontar a tabuletas de anotações babilônicas de 6000 ªC. sobre fermentação, e a revolução em microbiologia tenha ocorrido em 1953 com a descoberta científica da estrutura básica da vida, a hélice dupla de DNA, por Francis Crick e James Watson na Universidade de Cambridge, foi somente no início da década de 70 que a combinação genética e a recombinação do DNA, base tecnológica da engenharia genética, possibilitaram a aplicação de conhecimentos cumulativos. Desde então os avanços desta área da tecnologia da informação avançaram sem parar. Primeiro vieram as aplicações na medicina, depois a agroindústria e os microorganismos. Existem pesquisadores do mundo inteiro engajados em mapear o genoma humano. Atualmente, mais de 85% de porções das seqüências de genes humanos estão determinadas, porém muito pouco se sabe sobre as funções de cada porção genética ou sua localização. Mas e por que considerar a engenharia genética como uma tecnologia da informação? Isso deve-se ao fato de a engenharia genética concentrar-se na decodificação, manipulação e conseqüente reprogramação dos códigos da matéria viva. E também de, nos anos 90, a biologia, a eletrônica e a informática estarem convergindo e interagindo em suas aplicações e materiais.

Sem dúvida vivemos em um mundo de profundas contradições, se por um lado avançamos muito em várias áreas do conhecimento humano, em contrapartida ainda convivemos com muitas formas de discriminação, sejam elas raciais, de sexo ou de condição social. Ainda não descobrimos uma forma de repartir as riquezas geradas de forma justa e igualitária. Afinal de contas, por que a grande maioria deve trabalhar para uma minoria que às custas desta exploração acumule condições de desfrutar benefícios restritos?

Como pode-se ver, o mundo em que vivemos passa por um momento de transição, impulsionado pelas transformações impostas por esta Revolução da Tecnologia da Informação que apenas começa a surtir seus efeitos, assim como nas revoluções passadas, os novos padrões e paradigmas impostos não se deram de forma imediata, mas sim foram sendo sentidos paulatinamente ao longo do tempo. Com certeza os efeitos desta nova fase estão apenas começando a serem sentidos, afinal a Era da Informação está apenas iniciando.

 

 

 Luciane F. Hollerbach

 

 

 

 

 

 

 

 

 

QUESTIONAMENTOS

 

  1. A microeletrônica altera o perfil da produção e do emprego. "Pensar que os operários desempregados por máquinas encontrarão empregos na fabricação dessas máquinas é tão absurdo quanto a expectativa de que os cavalos substituídos por automóveis possam ser utilizados nos diversos ramos da indústria automobilística." W. Leontieff
  2. "Nós somos os hippies dos anos 90! Tecnologia é a nossa droga, dinheiro nosso sexo. Nosso amor livre é a comunicação global." John Clark
  3. O Projeto Tecnópolis na Grande Porto Alegre objetiva criar um ambiente propício à geração de tecnologia utilizando um modelo semelhante ao encontrado no Vale do Silício na costa oeste americana, interligando universidades, empresas e instituições de pesquisa relacionadas às tecnologias da informação, pois estudos apontam que mesmo com as tecnologias de conexão remota é necessária uma proximidade física entre estas instituições para que cumpram com o papel esperado: geração de tecnologia.

 

LUCIANE F. HOLLERBACH